<em>Álvaro Cunhal e a sua criação artística</em>
Excertos da Intervenção na Conferência realizada a 18 de Julho na biblioteca-museu República e Resistência, por Rogério Ribeiro, um texto que o Avante! publicou então na íntegra e de que hoje voltamos a recordar as partes mais significativas.
(...)A procura de encontrar formas de transmitir o sentido do «belo» no seu valor intrínseco, constituindo um valor estético em si mesmo, era para Álvaro Cunhal uma linha, um forte motivo de reflexão. Considerava a obra de arte aberta à complexidade dos nossos sentimentos e motivações.
«O artista é um criador e o belo é em si mesmo um valor estético». Esta é uma afirmação simples, luminosa e bastante clara.
São inúmeros os exemplos dados nos seus textos que permitem afirmá-lo.
Por exemplo, comentando um quadro de El Greco, Uma vista de Toledo, onde o céu se abate dramático e anunciador duma violenta tempestade em azuis quase negros e cinzentos, comenta: «não nos transmite apenas a violência de uma tempestade natural, mas o pesadelo da inquisição». E acrescenta, «o significado social não precisa de ser explicitado para ser suficientemente expressivo».
Este «mover» entre o conteúdo e a forma, entre as vontades e os sonhos, entre o compromisso e a luta social expressas na arte, ao longo da sua história, continuando como questão central hoje, é também uma linha de reflexão que desde a sua juventude Álvaro Cunhal debate, analisa, discute.
Em 1939 (ano em que faz um desenho para a capa da primeira edição dos Esteiros de Soeiro Pereira Gomes), numa polémica na Seara Nova em que se envolve com José Régio, autor da Encruzilhada de Deus, e que Álvaro Cunhal intitulou Numa Encruzilhada dos Homens e depois, Ainda na encruzilhada, o que estava em causa era fundamentalmente a relação da arte com a vida.
Para os «presencistas» a arte era um fim em si mesmo, a mais pura e sublime. Ela deveria ser a revelação íntima do seu autor, dos seus problemas, das suas cogitações, num universo pessoal e livre de problemas, das questões sociais ou outras que marcavam o tempo a acontecer como coisa exterior e fora do seu ambiente ou da motivação criativa.
Contrariava Álvaro Cunhal com toda a força da sua argumentação, que não estava «em causa o valor poético mas a atitude social, que através da poesia cantava e comunicava». O isolamento do poeta na sua torre de marfim, como então se dizia, e que não apoucava a arte, antes lhe dava novas e renovadas dimensões se à sua qualidade acrescentasse a participação e utilidade no quadro de vida que então se vivia. Não é necessário recordá-lo, os anos 40 são anos dramáticos, são invadidos pelo fascismo alemão lançado na guerra que incendiará a Europa, pela Espanha saída duma guerra civil, onde o fascismo de Franco impôs a lei da morte, pela Itália de Mussolini, pela nossa repressão interna, onde o polvo fascista alargava violentamente a sua acção repressiva.
É, no entanto, necessário deixar uma nota. Cunhal nesta polémica e mais tarde no livro das suas reflexões sobre a problemática artística, ressalva a importância do movimento da «Presença» na sua rotura com o passado academizante e contra a mediocridade existente na literatura portuguesa de então. Refere alguns autores com particular carinho o que sublinha o seu grande respeito, a sua argúcia e o natural envolvimento activo, critico, participante no mundo intelectual.
Entre outras, estas, julgo terem sido linhas mestras que motivaram a Álvaro Cunhal longas e debatidas reflexões sobre o exercício, o pensamento e a prática da arte, quer interrogando a sua função, a sua utilidade efectiva no plano global do indivíduo, a sua luta solidária, quer como elemento participante na modificação da sociedade movida por ideais de fraternidade, de justiça social e de liberdade.
*
Houve um sentimento profundo que atravessou o homem, um pouco por todo o mundo, um sentimento pleno e sensível onde se reflectiram e convergiram duma forma idêntica os desejos, os sonhos, as lutas, que de todos os continentes se anunciavam numa vontade que conquistou o canto e a voz de milhares e milhares de homens numa determinação de ganhar a paz necessária ao refazer do mundo.
É neste quadro que nasce, ou o que se encontrou como resposta a estas premissas um movimento denominado neo-realismo, que como o disse Álvaro Cunhal «está indissoluvelmente ligado à luta pela liberdade e à democracia, contra a ditadura fascista em Portugal».
Dos poetas do Novo Cancioneiro dos quais dizia João Gaspar Simões, «é o facto de esses poetas terem decidido que a poesia deveria ser utilizada para determinados fins», motivo que os isola e caracteriza diferentemente dos da Presença para quem a poesia era uma actividade em si mesma.
Mas o movimento começa a conhecer os primeiros livros como o novo e importante romance Gaibéus de Alves Redol, e avança com uma vitalidade extraordinária que se estende à poesia, à música, ao teatro, ao cinema, às artes plásticas, a todas as actividades criadoras, tendo como vector comum não apenas o autor e o esforço pela qualidade do seu trabalho, como, e cito, «partir de uma visão da sociedade em que o interesse social e humano do artista o conduzia a tomar como objecto da criatividade não o seu eu, antes as classes trabalhadoras, nomeadamente o operariado, os camponeses, os pescadores».
O neo-realismo foi nestes anos o motor, o que deu a motivação, a unidade, a energia, e teve uma participação muito activa na vida do País, dando uma luta sem tréguas à censura, à pide, ao regime. Conta Álvaro Cunhal que um crítico do Diário de Noticias preocupado com o insucesso da literatura «oficial», comentava «entre nós é preciso dizer mal dos ricos para agradar aos leitores».
O que ressalta hoje, quando a memória ou estudos que começam de novo a surgir, ou um simples olhar sobre o quadro dos acontecimentos, era a forte solidariedade política. Os presos políticos enchiam as prisões por todo o mundo. Uma repressão sem lei varria de igual modo o mais pequeno sinal de indignação, o mínimo sinal de luta, odiava a inteligência, desprezava o conhecimento, queria calar o mais sussurrado grito pela liberdade
Mas não conseguiam...
Escritores, poetas, operários, camponeses, estudantes, homens e mulheres, como uma imensa mola disparavam para o futuro, mau grado as condições da repressão arbitrária, mau grado a censura, a violência, e a miséria. É neste barco que viaja uma grande e incontida esperança que os poetas cantam, que os músicos como que a anunciam, que os escritores denunciando-a abrem ao mundo, que os pintores descobrem uma outra natureza em si próprios... que uma grande onda de solidariedade invade o mundo.
«O artista é um criador e o belo é em si mesmo um valor estético». Esta é uma afirmação simples, luminosa e bastante clara.
São inúmeros os exemplos dados nos seus textos que permitem afirmá-lo.
Por exemplo, comentando um quadro de El Greco, Uma vista de Toledo, onde o céu se abate dramático e anunciador duma violenta tempestade em azuis quase negros e cinzentos, comenta: «não nos transmite apenas a violência de uma tempestade natural, mas o pesadelo da inquisição». E acrescenta, «o significado social não precisa de ser explicitado para ser suficientemente expressivo».
Este «mover» entre o conteúdo e a forma, entre as vontades e os sonhos, entre o compromisso e a luta social expressas na arte, ao longo da sua história, continuando como questão central hoje, é também uma linha de reflexão que desde a sua juventude Álvaro Cunhal debate, analisa, discute.
Em 1939 (ano em que faz um desenho para a capa da primeira edição dos Esteiros de Soeiro Pereira Gomes), numa polémica na Seara Nova em que se envolve com José Régio, autor da Encruzilhada de Deus, e que Álvaro Cunhal intitulou Numa Encruzilhada dos Homens e depois, Ainda na encruzilhada, o que estava em causa era fundamentalmente a relação da arte com a vida.
Para os «presencistas» a arte era um fim em si mesmo, a mais pura e sublime. Ela deveria ser a revelação íntima do seu autor, dos seus problemas, das suas cogitações, num universo pessoal e livre de problemas, das questões sociais ou outras que marcavam o tempo a acontecer como coisa exterior e fora do seu ambiente ou da motivação criativa.
Contrariava Álvaro Cunhal com toda a força da sua argumentação, que não estava «em causa o valor poético mas a atitude social, que através da poesia cantava e comunicava». O isolamento do poeta na sua torre de marfim, como então se dizia, e que não apoucava a arte, antes lhe dava novas e renovadas dimensões se à sua qualidade acrescentasse a participação e utilidade no quadro de vida que então se vivia. Não é necessário recordá-lo, os anos 40 são anos dramáticos, são invadidos pelo fascismo alemão lançado na guerra que incendiará a Europa, pela Espanha saída duma guerra civil, onde o fascismo de Franco impôs a lei da morte, pela Itália de Mussolini, pela nossa repressão interna, onde o polvo fascista alargava violentamente a sua acção repressiva.
É, no entanto, necessário deixar uma nota. Cunhal nesta polémica e mais tarde no livro das suas reflexões sobre a problemática artística, ressalva a importância do movimento da «Presença» na sua rotura com o passado academizante e contra a mediocridade existente na literatura portuguesa de então. Refere alguns autores com particular carinho o que sublinha o seu grande respeito, a sua argúcia e o natural envolvimento activo, critico, participante no mundo intelectual.
Entre outras, estas, julgo terem sido linhas mestras que motivaram a Álvaro Cunhal longas e debatidas reflexões sobre o exercício, o pensamento e a prática da arte, quer interrogando a sua função, a sua utilidade efectiva no plano global do indivíduo, a sua luta solidária, quer como elemento participante na modificação da sociedade movida por ideais de fraternidade, de justiça social e de liberdade.
*
Houve um sentimento profundo que atravessou o homem, um pouco por todo o mundo, um sentimento pleno e sensível onde se reflectiram e convergiram duma forma idêntica os desejos, os sonhos, as lutas, que de todos os continentes se anunciavam numa vontade que conquistou o canto e a voz de milhares e milhares de homens numa determinação de ganhar a paz necessária ao refazer do mundo.
É neste quadro que nasce, ou o que se encontrou como resposta a estas premissas um movimento denominado neo-realismo, que como o disse Álvaro Cunhal «está indissoluvelmente ligado à luta pela liberdade e à democracia, contra a ditadura fascista em Portugal».
Dos poetas do Novo Cancioneiro dos quais dizia João Gaspar Simões, «é o facto de esses poetas terem decidido que a poesia deveria ser utilizada para determinados fins», motivo que os isola e caracteriza diferentemente dos da Presença para quem a poesia era uma actividade em si mesma.
Mas o movimento começa a conhecer os primeiros livros como o novo e importante romance Gaibéus de Alves Redol, e avança com uma vitalidade extraordinária que se estende à poesia, à música, ao teatro, ao cinema, às artes plásticas, a todas as actividades criadoras, tendo como vector comum não apenas o autor e o esforço pela qualidade do seu trabalho, como, e cito, «partir de uma visão da sociedade em que o interesse social e humano do artista o conduzia a tomar como objecto da criatividade não o seu eu, antes as classes trabalhadoras, nomeadamente o operariado, os camponeses, os pescadores».
O neo-realismo foi nestes anos o motor, o que deu a motivação, a unidade, a energia, e teve uma participação muito activa na vida do País, dando uma luta sem tréguas à censura, à pide, ao regime. Conta Álvaro Cunhal que um crítico do Diário de Noticias preocupado com o insucesso da literatura «oficial», comentava «entre nós é preciso dizer mal dos ricos para agradar aos leitores».
O que ressalta hoje, quando a memória ou estudos que começam de novo a surgir, ou um simples olhar sobre o quadro dos acontecimentos, era a forte solidariedade política. Os presos políticos enchiam as prisões por todo o mundo. Uma repressão sem lei varria de igual modo o mais pequeno sinal de indignação, o mínimo sinal de luta, odiava a inteligência, desprezava o conhecimento, queria calar o mais sussurrado grito pela liberdade
Mas não conseguiam...
Escritores, poetas, operários, camponeses, estudantes, homens e mulheres, como uma imensa mola disparavam para o futuro, mau grado as condições da repressão arbitrária, mau grado a censura, a violência, e a miséria. É neste barco que viaja uma grande e incontida esperança que os poetas cantam, que os músicos como que a anunciam, que os escritores denunciando-a abrem ao mundo, que os pintores descobrem uma outra natureza em si próprios... que uma grande onda de solidariedade invade o mundo.